Thursday, September 14, 2006

 
Norberto Tavares
Certos produtores estão a levar a música de Cabo Verde para o abismo
Por: Santos Spencer
Quinta-feira, 28 de Agosto de 2003

Um dos pilares da música de Cabo Verde está decido em não lançar nenhuma obra discográfica enquanto durar a hegemonia dos produtores musicais que, no seu entender, vêm desempenhando um papel nocivo na industria musical cabo-verdiana.

Senhor do funaná e defensor acérrimo do mundo rural, Norberto Tavares disse sentir-se com as energias retemperadas depois do grito de guerra de Paulino Vieira contra certos produtores de música e festivais cabo-verdianos. “O Paulino é um homem muito corajoso e ele está a batalhar por uma causa muito justa à qual eu também me sinto comprometido”.

Na óptica de Norberto Tavares, o rumo que certos produtores musicais estão a tentar traçar à música de Cabo Verde vai em direcção ao abismo.

O popular compositor e intérprete de Santa Catarina, residente em New Bedford - MA, EUA, mostra-se indignado com aquilo que ele chama de aberrações de certos produtores da música de Cabo Verde que, pensando apenas em ganhar dinheiro, da forma mais imediata possível, vêm prestando um péssimo serviço à cultura porquanto constituem autênticos entraves à criatividade dos artistas. “É de uma tamanha insensatez e falta de respeito um produtor chegar a um músico / arranjador com uma proposta de trabalho e dizer que no disco tal pretende ter a mesma linha já ultizada por outro artista”, asseverou.

Norberto vai ainda mais longe exemplificando casos em que ele e outros arranjadores são procurados por produtores que, tendo projectos discográficos em carteira, chegam ao estúdio com um “sample” nas mãos contendo trechos de outros artistas, na expectativa de ver esses trabalhos copiados na sua totalidade ou em parte.

Mas a crítica de Tavares atinge também jovens artistas que, na pressa de atingir o estrelato, pedem o arranjador para lhes fazer algo no estilo de artistas já consagrados. “Chegam ao ponto de trazer músicas, por exemplo de Grace Évora, Beto Dias e Gil Semedo e têm o descaramento de pedir que se lhes faça algo parecido e na hora de cantar tentam, a todo o custo, imitar esses artistas, abrindo mão da naturalidade das respectivas vozes. No fundo esses jovens estão dependentes dos produtores e são esses os verdadeiros mentores desse mal”, lamentou.

O artista entende que muitos jovens estão numa encruzilhada, pelo que os músicos mais experientes têm o dever de lhes apontar a via mais saudável a seguir. Com esta chamada de atencão, Norberto Tavares realça que a música requer sempre criatividade e originalidade como componentes essenciais para ser uma forma de arte atraente.
 
Assim, perante o cenário descolorido que vem pairando em certa franja da música cabo-verdiana, o criador de “Jornada di um badiu” considera ser vital a elevação de um espírito crítico mas sempre numa perspectiva construtiva de forma a se orientar melhor os jovens que se mostram, em certa medida, “confusos” com relação à própria identidade cultural do povo cabo-verdiano.

O autor de “Volta pa fonti” diz estar muito preocupado com a vocação estritamente mercantil com que se vem direccionando a música de Cabo Verde a ponto de, por exemplo, se misturar a música cabo-verdiana com a música de outros países africanos de expressão portuguesa passando a tratá-la por “música dos PALOP”. Neste aspecto, Tavares sublinha que a riqueza cultural do mundo reside precisamente na sua diversidade pelo que perante o actual mosaico em que tudo vem misturado “desaparece o factor identidade e todos ficamos mais pobres”, frisou.

Norberto destaca que cada povo pode dar o seu contributo cultural a este planeta sem deixar de ser aquilo que é. “Devemos dar o nosso contributo com aquilo que somos”, disse.

O rol de críticas aos produtores também alerta para uma certa marginalização de determinados artistas que, por não afinarem pelo mesmo diapazão destes, sofrem autênticas represálias por parte de “quem controla o mercado”, ou seja, o produtor, o editor e o distribuidor que, no caso cabo-verdiano, são três papéis desempenhados por uma única figura que normalmente também dispõe do seu próprio circuíto de venda a retalho. “Se você não alinhar com os desejos de um desses manda-chuvas e optar por lançar o seu disco com auto-produção, este, tenta, a todo o custo, bloquear a comercialização do teu trabalho. Há um esquema de troca de discos entre essas empresas e nas prateleiras só se dá visibilidade aos discos dos artistas da casa. O resto fica entregue à sua sorte.

Norberto Tavares é peremptório na defesa da sua independência enquanto músico: “se ver as portas franqueadas pelos produtores deverá custar a perda da minha identidade e liberdade de criação prefiro mil vezes deixar as minhas composições na gaveta”.

A CaboVerdeOnline.com sabe que Norberto Tavares tem na gaveta mais de duas centenas de composições, como resultado de cerca de 35 anos de estrada musical. Posted by Picasa

2 Comments:

Blogger jad said...

A equipa SAPO.CV (www.sapo.cv) deseja contacta-lo, por favor, deixe o seu e-mail.

3:09 AM  
Blogger Ana Máximo said...

Boa noite, daqui fala uma fã da cultura caboverdiana, musica, pessoas, país, gastronomia e afins...como tal queria pedir-lhe um favor se me permitir...gostaria de adquirir um album ja muito antigo dos black power, do ano de 1976, do qual sei q foi o fundador, o album chama-se "Mornas e coladeiras", este é apenas um entre tantos outros fantaticos albuns, mas este é um q me leva a viajar até a minha infancia, dai lhe pedir ajuda, no sentido de me indicar como e onde adiquiri-lo.
Estando atencipadamente grata pela sua atenção e tempo dispendido, me despeço com os melhores cumprimentos.

Ana Máximo


E já q estou numa de pedir, por favor faça-o para o meu email.. anamaxymo@gmail.com

3:13 PM  

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